quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Seu Joaquim e seus abismos.


Seu Joaquim era um homem abissal, gostava de profundezas, vivia nelas. Tinha uma pequena venda, onde havia de tudo um pouco. já tinha sido homem de posses, teve fazenda do café tão grande que a vista não alcançava. Mas um dia, deixando de ser abissal, saiu para o mundo das redondezas, quis subir e descer, conquistar novas terras atravessar o fosso e conhecer a liberdade.

Vendeu sua fazenda de café comprou um caminhão e resolveu ser transportador de café. Tornou-se outro homem, mais alegre, mais comunicativo, conheceu outras paragens, outros portos, outros amores. Quis o destino que, numa curva qualquer seu caminhão desgovernado fosse parar no abismo do qual ele tinha fugido. Só ele sobreviveu, por que ele conhecia o abismo. Já seu caminhão, nada restou ficou lá naquele abismo para sempre.

De volta ao seu mundo abissal, sem nada no bolso ou nas mãos, seu Joaquim construiu uma casa de tábuas na cidade. Na lateral da frente da casa levantou uma tábua e ali montou sua vendinha. Passava seus dias ali pensativo a picar cebolas cruas e comê-las, para o espanto de todos, quando não estava atendendo os clientes, que eram poucos. No quintal criavam porcos, galinhas, patos e outros animais de terreiro. Creio que havia uma cabra, que dava leite, mas não tenho certeza.

Sua desfaçatez de trocar o certo pelo errado, no entendimento de sua redonda esposa. provocou um abismo intransponível entre os dois, jamais superado e visível pelas camas separadas no quarto de dormir, e pelos diálogos ríspidos entre eles, no cotidiano.

Mas tinham uma parceria, ela fazia os doces e salgados para a venda e ele ficava ali sem muita conversa pronto a vender o que lhe pediam. Não tinha muita paciência, se a pessoa não sabia o que queria e ficava a perguntar o preço disso e daquilo, ele não hesitava em lhe dizer, volte quando souber o que quer.

O que deixava sua redonda esposa, minha avó, desgostosa. Assim vai perder cliente, dizia ela. Não importa, repetia ele. Se não sabe o que quer, melhor não vir me perturbar. Mas era generoso com as crianças. Às escondidas, pois sua esposa não gostava, dava-lhes balas e chicletes de graça. A presença das crianças retirava-lhe de seu abismo, devolvia-lhe a alegria de pensar que tudo poderia começar de novo naqueles pequeninos.

Um dia o abismo chegou de vez, picando uma cebola, como sempre fazia, não conseguiu leva-la à boca, sua mão pendeu-se, seu corpo caiu e como costumam dizer no interior, morreu como um passarinho. Seu Joaquim trazia em seu rosto no leito de morte um sorriso de quem estava feliz, de quem voltou para seu abismo para sempre, e lá reencontrou seu caminhão símbolo de sua liberdade.

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