sexta-feira, 23 de novembro de 2018


Quando criança, em nosso quarto de dormir havia um quadro pendurado na parede, chamado Dois Caminhos. Era tradicional na maioria das casas das famílias católicas mineiras este quadro.
Seu objetivo era nos lembrar de que existiam dois caminhos. Um tortuoso, embora verde e primaveril, que nos levaria ao céu, ao paraíso; outro, largo com placas de boas vindas, plano, cheio de gente em festas e em alegria, mas que nos levaria ao inferno.
Este quadro dos dois caminhos sempre me inquietou e foi motivo de desentendimento entre mim e a religião católica desde tenra idade.
Na verdade, o que eu queria era fazer um atalho entre o caminho para o céu e o inferno, ou seja, entrar pelo caminho do inferno, que era muito mais divertido e lá no arco Iris saltar para o céu, o paraíso. Não se pode servir a dois senhores, me diziam. Uma vida desregrada não pode levar ao paraíso, é preciso conquistá-lo na caminhada da vida.
Mas para mim continuava a dúvida. Por que se tem que sofrer para ser feliz na eternidade, para conquistar o paraíso?
Já na adolescência, o encontro com um sábio padre trouxe-me uma explicação inteligente. Falou-me ele que não se tratava de sofrimento e sim de sabimento, ou seja, de sabedoria:
- Se você vive uma vida de excessos seja em qualquer campo, você adoece e conhece o inferno em vida. Se ao contrário você vive uma vida mais regrada, você poderá conhecer o seu contrário, ou seja, o paraíso em vida.
O mesmo se aplicaria, segundo ele, na pós-vida. Se você trilhar em vida caminhos mais virtuosos sua alma, que ele no caso acredita existir, o que não é o meu caso, descansará em paz no paraíso dos céus; se ao contrário sua caminhada em vida for viciosa, sua alma viverá em tormento, ou seja, no inferno.
Mas, lembrou-me ele:
- Não nos esqueçamos de que, assim como na vida terrena, na outra vida também cabem recursos. Existe o purgatório, e o perdão poderá vir se sincero for o seu arrependimento. Todavia, uma pena terá que ser cumprida até que consiga alcançar o paraíso. Mas dependendo da vida terrena que levastes, nem direito a recursos terás, irás direto para o inferno.
Suas explicações me trouxeram certo alívio, pois me garantiu que, mesmo tendo uma vida desregrada, dependendo do desregramento, o tal atalho do caminho do inferno para o paraíso é possível. E como meus desregramentos, não são lá grande coisa, provavelmente serão passíveis de recursos e pagando uma pequena pena no purgatório conquistarei o paraíso e finalmente o reino dos céus.
A existência/conquista do céu, do paraíso, ou o seu contrário, o inferno, vai além do seu sentido estrito religioso, pois tem um caráter estruturador da vida em sociedade, tanto no seu presente, quanto no seu futuro enquanto humanidade. Alguém disse que a religião existe para que os pobres não matem os ricos. Sou obrigada a concordar.
 Já eu, sou agnóstica por natureza.

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