Quando
criança, em nosso quarto de dormir havia um quadro pendurado na parede, chamado
Dois Caminhos. Era tradicional na maioria das casas das famílias católicas mineiras
este quadro.
Seu
objetivo era nos lembrar de que existiam dois caminhos. Um tortuoso, embora
verde e primaveril, que nos levaria ao céu, ao paraíso; outro, largo com placas
de boas vindas, plano, cheio de gente em festas e em alegria, mas que nos
levaria ao inferno.
Este quadro
dos dois caminhos sempre me inquietou e foi motivo de desentendimento entre mim
e a religião católica desde tenra idade.
Na verdade,
o que eu queria era fazer um atalho entre o caminho para o céu e o inferno, ou
seja, entrar pelo caminho do inferno, que era muito mais divertido e lá no arco
Iris saltar para o céu, o paraíso. Não se pode servir a dois senhores, me
diziam. Uma vida desregrada não pode levar ao paraíso, é preciso conquistá-lo
na caminhada da vida.
Mas para
mim continuava a dúvida. Por que se tem que sofrer para ser feliz na eternidade,
para conquistar o paraíso?
Já na
adolescência, o encontro com um sábio padre trouxe-me uma explicação
inteligente. Falou-me ele que não se tratava de sofrimento e sim de sabimento,
ou seja, de sabedoria:
- Se você vive
uma vida de excessos seja em qualquer campo, você adoece e conhece o inferno em
vida. Se ao contrário você vive uma vida mais regrada, você poderá conhecer o
seu contrário, ou seja, o paraíso em vida.
O mesmo se
aplicaria, segundo ele, na pós-vida. Se você trilhar em vida caminhos mais
virtuosos sua alma, que ele no caso acredita existir, o que não é o meu caso,
descansará em paz no paraíso dos céus; se ao contrário sua caminhada em vida for
viciosa, sua alma viverá em tormento, ou seja, no inferno.
Mas,
lembrou-me ele:
- Não nos
esqueçamos de que, assim como na vida terrena, na outra vida também cabem
recursos. Existe o purgatório, e o perdão poderá vir se sincero for o seu
arrependimento. Todavia, uma pena terá que ser cumprida até que consiga
alcançar o paraíso. Mas dependendo da vida terrena que levastes, nem direito a
recursos terás, irás direto para o inferno.
Suas
explicações me trouxeram certo alívio, pois me garantiu que, mesmo tendo uma
vida desregrada, dependendo do desregramento, o tal atalho do caminho do
inferno para o paraíso é possível. E como meus desregramentos, não são lá
grande coisa, provavelmente serão passíveis de recursos e pagando uma pequena
pena no purgatório conquistarei o paraíso e finalmente o reino dos céus.
A existência/conquista
do céu, do paraíso, ou o seu contrário, o inferno, vai além do seu sentido estrito
religioso, pois tem um caráter estruturador da vida em sociedade, tanto no seu
presente, quanto no seu futuro enquanto humanidade. Alguém disse que a religião
existe para que os pobres não matem os ricos. Sou obrigada a concordar.
Já eu, sou agnóstica por natureza.

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