quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Recomendações para a minha morte


Recomendações para a minha morte

Neuza Lima/2018

O sol apressado saiu quando eu ainda estava em nuvens. Afastei as cortinas nebulosas que o cobriam abri uma pequena fresta deixei-o entrar ardendo meus olhos ainda dormentes tentando pôr em pé meu corpo sonolento quase inconsciente.
Não consegui. A cama, os lençóis, o calor uterino daquele lugar não deixava meu corpo vir à luz. Faltava-lhe razão, sentido para a-cordar, re-nascer. Afinal renascemos a cada manhã. Detive-me ali, consciente da entrega preguiçosa e modorrenta naquela lama chamada cama.
Por sorte, tal como eu, o sol se escondeu justificando assim minha modorra uterina. Deleitei-me sem culpa. E enroscada em minhas mortalhas pus-me a pensar na morte. Sim, na morte. Por que não, de tudo é o que de mais certo temos.
Estas duas sílabas, morte, eu me propus atravessar. Como seria morrer, deixar de existir, ser o não ser e não to be or not to be. Que vazio seria este? Mortos não sentem.  Morrer é deixar de ser, de e-xistir. Pensando assim confesso que senti uma sensação de prazer de calma, de paz. O único problema é que não tem volta. Esta prerrogativa não me agradou. Preferi ficar com as experiências das “pequenas mortes”, embora breves, sempre nos trazem de volta.
Mesmo assim não me furtei em pensar sobre a minha morte o ambiente era convidativo. Será que eu faria falta? Talvez por um tempo sim, mas como acontece com todos, com o tempo eu também seria esquecida. E para mim, a morta, o que aconteceria, para onde eu iria?
Considero-me agnóstica, portanto céu e inferno está descartado, alma nem pensar. E tudo isso que sou, fui, no caso de estar morta, para onde iria? Existiriam campos de energia no qual minha memória estaria inserida e viveria solta no espaço?
Não sei. Desisti desta ideia, não tenho respostas para isso, mera imaginação.
Resolvi então pensar sobre o meu enterro, isso sim eu poderia planejar, não garantir, mas almejar. Aqui expresso meus desejos féretros.
O primeiro deles é que desejo ser cremada. Não vou brotar, portanto não quero que me plantem na terra.
O velório, se possível gostaria que fosse evitado, mas sei que é prerrogativa dos que ficam, que assim seja, mas com uma condição quero deixar antes a lista dos convidados, não quero desconhecidos olhando para minha cara murcha, finada.
Outra condição são as flores, quero apenas margaridas, e todas longe do meu rosto, elas me incomodam tanto pelo perfume quanto pelas pétalas.
A mortalha já está separada, guardada e avisada a todos. É um tailleur rosa champanhe em seda chantum muito elegante, com uma linda gola. Nunca usei, comprei para o segundo casamento de minha filha, mas na última hora achei que me envelheceu. Resolvi comprar outro no mesmo estilo só que verde petróleo com detalhes em dourado que se fez acompanhar de um belo chapéu me dando um ar mais rainha Elizabeth nos tempos áureos e menos doce senhorinha do interior da Inglaterra dos filmes de Jane Austen, que o rosa me deu.
Assim a cara roupa comprada na Mary Caetano resolvi não trocar e guardá-la para esta finalidade ser a minha mortalha. Este tom suave e doce ficará bem em contraste à rigidez do meu corpo morto. É claro, acompanhado de colar e brincos de pérolas, falsos, os verdadeiros ficam de herança.
Minhas cinzas desejo que sejam jogadas ao mar, em uma solenidade alegre com bebidas, música e danças.
Os amigos, amigas e parentes que deverão levar as cinzas também já estão escolhidos e registrados em papel. Quero em minha despedida os amigos que ao longo da vida foram como os bonsais e carvalhos, frágeis e fortes. Ninguém quer amigo forte o tempo todo, afinal, às vezes, é você quem quer ser o forte. Se algum for antes de mim, já coloquei possíveis substitutos.
O mar, o de Marataizes foi lá onde primeiro vi o mar. Que emoção, menininha, não queria parecer bobinha, mas não me contive, respirei fundo e disse:
 – Parece não ter fim, onde ele acaba?
- Lá do outro lado do mundo. Meu pai disse.
E eu nem sabia que o mundo tinha outro lado. O mundo para mim era tudo que eu conhecia e era muito pouco.
A música já está escolhida, mas é segredo só será revelado na hora certa.
Desejo ainda que seja em um fim de tarde, ao pôr o sol, quando ele deita seus raios brilhantes ao mar traçando um caminho colorido em direção ao infinito. Minhas cinzas percorrerão esse colorido caminho até o outro lado do mundo onde renascerá sem corpo e sem alma e em pura poesia vai renovar brilhar de novo o arco iris.
Assim poderei ser eterna, infinita. Afinal, eternidade, é o desejo maior do homem.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Lembranças

Lembranças E como pó nossas lembranças desvanecem. Voam para longe, Para um lugar Que não se sabe onde, A cada vez que alguém ...